quinta-feira, 29 de maio de 2008

O beijo entre iguais (Aguinaldo Silva)

Não tenho muito o hábito de fuçar em blogs de celebridades. Mas hoje, fuça daqui, fuça dali, acessei o blog do escritor de novelas Aguinaldo Silva e li um texto interessante, sobre como o povo brasileiro é hipócrita! Aí vai:

Cada vez que o celular toca e eu atendo, é alguém que me pergunta:

“afinal sai ou não sai o beijo entre iguais?”

Vou tentar responder aqui de uma vez por todas.

Mas antes queria recordar, com minhas próprias palavras, uma notícia publicada no jornal O Globo há duas semanas.

Um torso de mulher foi incinerado na Avenida Brasil em plena luz do dia. Ela teve os braços e as pernas cortados, não se sabe se antes ou depois de morta, depois foi transportada até uma das avenidas mais movimentadas do Rio de Janeiro e colocada em meio a uma pilha de pneus nos quais alguém pôs fogo. Durante muito tempo o torso da mulher ficou lá a queimar, e assim as pessoas que passavam em carros e ônibus puderam registrar o fato.

Li a notícia, fiquei horrorizado, e no dia seguinte tratei de procurar no jornal a chamada “suíte”... Mas não se falou mais no caso; quem era aquela mulher, e quem a matou, esquartejou, e depois a incinerou de modo tão acintoso? Nem mais uma palavra a respeito. O caso, que me impressionara pelos sinais de extrema violência e de certeza da impunidade, deixara de ser assunto.

Então eu vos pergunto:

Um povo capaz de passar por uma cena dessas – um tronco de mulher sendo incinerado em praça pública – e depois esquecê-la no dia seguinte, pode ter o desplante, a desfaçatez, de afirmar que ficará chocado caso veja dois homens se beijando?

É claro que não pode, e se o fizer eu direi, com todas as letras, que ele está sendo hipócrita.

O povo brasileiro tem mais com que se preocupar - embora não o faça - e, portanto, o fato de um beijo entre dois homens ir ao ar numa novela de televisão depois das nove horas da noite certamente não fará com que ele mude suas convicções em relação a qualquer tema.

Mas então, perguntarão vocês, por que mostrar isso? E de novo eu vos respondo: porque o amor entre dois homens, ou entre duas mulheres, como gostar de feijoada, ou de caviar ou de doce de coco, é um dos fatos da vida... E é dessa matéria que as telenovelas se alimentam.

O Brasil é dos países menos estressados em relação a este assunto. Basta ver como resultaram inúteis todas as tentativas de satanizar Ronaldo Fenômeno por ter sido flagrado num motel com três travestis; pois os pais de família fazem fila nos pontos em que os travestis oferecem seus serviços - embora, como aconteceu com o tronco de mulher incinerado na Avenida Brasil - a maioria finja que não vê aquilo.

Em torno do tal “beijo entre iguais”, no entanto, criou-se um mito. E este diz que mostrá-lo na tevê tornará o Brasil um país menos digno. A corrupção, a ladroeira, a hipocrisia, a sacanagem, as mentiras de perna curta, tudo isso pode ser suportado pelos brasileiros sem que eles se sintam mal. Mas um beijo entre dois homens? Ai minha Nossa Senhora, isso não pode!

Eu afirmo com todas as letras: precisamos superar esse estresse de uma vez por todas e nos preocuparmos com o que realmente fere a nossa dignidade.

Por isso, o assim chamado “beijo entre iguais” pode até não ir ao ar. Mas eu me senti na obrigação de escrevê-lo.

E como foi que eu fiz isso?... Leiam a cena aí embaixo e depois tratem de guardá-la em vossos arquivos; pois isso não é apenas um texto – é também um documento, uma prova viva dos tempos interessantes em que vivemos.

A cena foi gravada ontem. E, ao contrário do que publicou aquela fifi de franja, o beijo foi gravado sim. Mas se ele vai ser mostrado, aí é outro departamento.

http://bloglog.globo.com/aguinaldosilva/

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