sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Bem pior do que furtar gravatas. (De Milly Lacombe)

Já dizia Agamenon: a Igreja só permite a homossexualidade para fins de pedofilia. Mas calma com a ventania. É preciso esperar que se complete a investigação que envolve o imaculado Padre Julio, porque, até lá, a suposta pedofilia (ainda que uma amiga tenha dito que sexo com um rapaz de 15 anos não deveria ser categorizado como pedofilia) será apenas especulação - afinal, ainda não se provou nada, e, contra o padre, por hora, apenas a história de um ex interno da Febem, outra relatada por testemunha sem nome, o aparecimento de mais um suposto abusado e a santa reputação de distúrbio sexual do clero. Portanto, prossigamos com cuidado na recapitulação da saga.Primeiro, o homem de deus vai à polícia dizer que está sendo extorquido. Se apressa em explicar que um ex interno da Febem está prestes a acusá-lo de abuso sexual, e por isso, indignado, resolveu delatar o safado. Onde já se viu caluniar um sujeito decente, que só faz ajudar aos outros? Inferno nele! Mas, antes de satã, um rendez-vous com a justiça dos homens, por favor.No dia seguinte, os jornais pedem a benção ao padre e tratam de divulgar seu drama sem se preocupar em analisar a história sob o ponto de vista do acusado: vai ver não é preciso consultar mais ninguém já que santo Julio, um cara que só faz recuperar aspirantes a marginais, está sendo chantageado por um desses que ele ajudou na vida. Muito fácil identificar o mentiroso dessa trama. As injustiças do mundo! O padre que só pensa no próximo está sendo sacaneado.E eis que, diabolicamente, a história ganha vida própria. 
O padre não foi ‘obrigado’ a dar ao infrator apenas 50 mil reais, conforme inicialmente registrado por ele à polícia. Agora, a defesa do padre já admite 150 mil, talvez mais, talvez bem mais - quem se lembra? O padre parece confuso, já não sabe quanto acabou dando ao amigo que virou inimigo. Muito menos dá indícios de que se lembrará de onde veio tanta grana, nem em que circunstância acabou indo a uma concessionária comprar um carrão zero para o sujeito que jura ser seu parceiro sexual. Sobre a compra do carrão, o padre primeiro diz que foi sacaneado: colocaram a máquina em seu nome sem sequer o consultar. Depois, confrontado pelo depoimento do vendedor da loja, que disse ter sido o padre o comprador do carro, volta atrás e, miraculosamente, lembra-se de ter ido à concessionária com o homem que agora o agora alega ser seu amante. Se era esse o tipo de ajuda que o padre dava a quem tentava reformar (sexo pago e carros zero) ainda deve haver fila nos fundos de sua Igreja.Não bastasse a via sacra, aparece uma testemunha que diz ter visto o santo homem em práticas libidinosas com menores. Mas quem é essa pessoa que não tem o nome divulgado? E esse outro rapaz que também diz ter sido abusado sexualmente pelo padre? Ah, só podem ser pessoas que querem acabar com a reputação do padre, da igreja, do catolicismo. Trata-se, certamente, de uma conspiração para destruir o padre, a Igreja e, é evidente, o PT, partido ao qual Julio é ligado há anos. Tudo piora quando vem a público o tal ex rebento, em carne e osso, dizendo, em detalhes sórdidos, que foi abusado pelo padre durante anos e anos. E que já havia recebido, em troca dos favores sexuais, mais de 700 mil reais do homem de Deus. Cruzes: Tanto dinheiro na conta corrente de um padre só pode ser milagre. Mas um homem tão bom como Julio bem merece ser beneficiário de uma intervenção financeiramente divina.Só que a coisa piora um tico mais: o suposto amante de Julio é um homem criativo e diz ser capaz de descrever o corpo do padre minuciosamente. A pedidos, o faz. Além disso, relata onde e como se davam os encontros sexuais. Diz ainda que havia outros abusados pelo padre. Ah, pivete! Como podes acusar assim um irmão que só quer o bem? Sai de reto.O advogado do santo homem corre para pedir que não levemos a sério as acusações do ex interno porque trata-se de um marginal, tecnicamente falando. Faz sentido. O rapaz, perdido na vida, acabou na Febem. Ali, achou que teria uma chance. Foi abençoado ao topar com padre Julio, que prontamente o ajudou. Foram anos de piedade gratuita, de pura doação, de presentes como uma sport utlity zero quilômetro, e agora o rapaz paga com isso: extorsão e acusação absurda.O padre, depois de duas semanas de reclusão, vem a público com o que juga ser a prova definitiva de que é inocente: uma fita que comprova a extorsão. Ele apenas se esquece que a extorsão não é, nem de longe, a parte mais grotesca dessa história. O que queremos saber é se santo Julio de fato era amante desse dito marginal, e, nesse caso, se houve outros menores que foram vítimas de sua distorção sexual. A extorsão, santo homem, é o pedaço menos azedo desse evangelho.O diabo é que, até este momento, as histórias que se encaixam são as relatadas pelo dito e rotulado marginal, que até agora não foi pego mentindo. O que diz o padre, para aqueles que se dispõe a raciocinar sem fazer uso da fé cega, não dá conta exata. Se ficar provado que Julio mantinha relações sexuais com um ou mais rapazes em troca de dinheiro, então, aos olhos da opinião pública, quem será o marginal dessa história? Ou será que o fato de ter ajudado muita gente com suas ações humanitárias dá direito ao padre de, livre de julgamento e críticas, convocar seus fiéis, sob promessa de repasse do dízimo, para bater uma punhetinha nos fundos da Igreja? Ah, abençoado clero. Pedofilia, assédio moral, mentiras sórdidas … Essa gente acredita mesmo naquilo que prega?Diante de tudo isso, eu só sei de uma coisa: furtar gravatas mais parece uma benção.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.
http://blonicas.zip.net/

Nenhum comentário: