O senador Renan Calheiros é um herói. O homem disse que não sairia e, apesar da avalanche de denúncias, não saiu de fato. Nada como ter reféns políticos. Nada como saber do podre alheio. E, afinal, cá entre nós, por que ele sairia? Tudo o que fez está dentro da cartilha moral e ética que nos governa. Todos fazem, todos sabem, todos se fecham em um código de honra torto, ninguém é punido – fora você e eu.
Quando o bando do senado percebeu que, para livrar a cara do compadre, seria preciso fazer uma sessão clandestina e com voto secreto, tudo ficou mais simples. “Vamos nos fechar aqui nessa sala, vamos nos blindar da mídia e que ninguém jamais saiba o que aconteceu aqui dentro”, pensaram. E, assim, fomos todos moralmente estuprados. Porque você e eu, os violentados pela ética podre de Brasília, estávamos naquela sala, de pernas abertas, invadidos lentamente pelo lixo político que foi ali despejado.
Mas por que deveriam esses servidores públicos, nossos funcionários, dizer como votaram? O que eles nos devem? Satisfação? Ah, pára com isso. Não devem nada a ninguém. São os donos do mundo. Covardia e hipocrisia são a moeda de troca em nossa capital. Todos fechados em um mesmo bunker de lodo. Nós, aqui fora, assistindo a tudo, enjoados com o cheiro que vem de lá.
Enquanto o excremento federal se espalha, nosso líder supremo, aquele que nada sabe, arrumou, como de praxe, uma missão além-mar. Lá de outra latitude chega a aspa: “Não vou aceitar que a crise americana nos atinja”. Falar sobre a proteção que seu Partidão deu ao senador moribundo, nem pensar. Nosso mestre acordou invocado, mas foi com a já velha e batida crise americana. Falou que nem macho. “Não aceito e pronto!” É sensacional. Melhor, só se tivesse dito: “Não aceito o inverno! Partir de hoje, não aceito nada além de verão”. A gente ainda chega lá. Por agora, o homem quer mesmo é falar do caju e do etanol. Só sobre isso consegue discursar. Nem mais sobre seu Corinthians, que agora é um caso de polícia com participação especial do Planalto, aceita tagarelar. Os assuntos estão cada vez mais restritos. Ainda bem que alguém lembrou a ele sobre o caju. Na volta ao Brasil, seus assessores já estão correndo atrás de pautas. Certamente promoverá a banana ou o nabo em caravanas pelo nordeste. “Renan? Que Renan?”.
Nossos líderes vivem um estado de esquizofrenia coletiva. Seus discursos estão dissociados da realidade. E as palavras perdem o valor quando não concatenam com a realidade vivida. O grande Renan agora prega que o povo, emocioando, o conclama e parabeniza pela vitória. Vai ver ele realmente vê a cena: uma praça lotada, milhares de eleitores aplaudindo sua honra e macheza. Uma vitória, diz, que foi do povo brasileiro. Se por “povo” ele se refere a essa classe que nos governa, terá toda a razão. Desistam. Legitimou-se o escárnio, a lorota, o trambique, o superfaturamento, a falta de decoro, a falta de ética. Passa a ser certo mentir, desviar (ia escrever roubar, mas quem rouba é pobre; rico desvia), iludir, superfaturar. O Brasil acabou, o senado mergulhou no pântano da podridão moral, onde já se encontravam a câmara e o Planalto. Estamos voando porque já estávamos no ar, mas não há ninguém na cabine. Assim, a queda é inevitável. Nem é mais preciso apertar o cinto. Mas nem tudo está perdido: a aeromoça já vai passar com um copinho de suco de caju.
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